Surreal: A girafa em fogo

Tínhamos em casa, quando eu era pequena, um quadro do Salvador Dali na parede.
Hoje me deparei com ele na internet e me brotaram alguns questionamentos.
O que significa a girafa?
A girafa é o de menos.
Podemos falar disso depois.
Interessante mesmo é a mulher cheia de gavetas.
A mulher cheia de gavetas do Dali, somos nós.
Gavetas do passado, na mente.
Nas gavetas ocultas o que guardamos?
O que continham as gavetas dos móveis da sua casa quando você era criança?
O passado em casa foi muita coisa, mas na época, como para todos, foi apenas a interpretação do que consegui compreender da parte que consegui ver, e não vemos muito. Disso, muitas coisas já esqueci. Sobrou a interpretação de hoje do que consigo lembrar da interpretação fantasiosa que dei na época, do que consegui compreender como criança, da parte que vi quando era pequena.
Uma criança não vê tudo e não compreende tudo do pouco que vê, e até mesmo distorce, seletivamente esquece, e não-seletivamente esquece também, e depois, adulta, só lembra pedaços reinterpretando com novos significados. O passado, como realidade não existe mais. Só existe a fantasia na memória de uma fantasia do que foi um longínquo passado.
Pobre legado que há na minha memória, ou pobre legado que permiti existir na minha memória. Legado de misérias.
No entanto, essas gavetas que as traças já roeram, continuam no inconsciente, e esse, grande inimigo subreptício, tomando as decisões dia e noite. E eu com a ilusão do livre arbítrio.
Melhor seria colocar as gavetas na girafa e deixá-las queimar, porque aquelas não deveriam ser mais do que combustível momentâneo deste animal que queima em segundo plano.
Combustível, não alimento.
Isso pra não falar do pequeno homem atrás da girafa, e menos ainda daquela montanha onde corre lava, atrás destes dois.

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